O lago e a hipocrisia paulistana Fevereiro 27, 2009
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Têm coisas que só acontecem em São Paulo. Quando digo ‘coisas’ me refiro a tragédias mesmo, das mais inacreditáveis. Queda de avião em avenida movimentadíssima; buraco do metrô que engole casas, caminhões e vidas;teto de templo de igreja evangélica que desaba; shopping que explode, e por aí vai… A última da série tragédias inacreditáveis, apesar de não ter causado perda de vidas humanas, é a do lago da Aclimação, que esvaziou em um dia de chuva torrencial na capital paulista. A base do vertedouro do lago, que funciona como uma espécie de dosador quando o lago enche de mais, estourou, fazendo com que toda a água do lago escoasse pelo córrego Pedra Azul, que deságua no Tamanduateí e este, por sua vez, no Tietê. A enxurrada arrastou toneladas de peixe, aves, tartarugas e anfíbios que habitavam o lago. Uma violência, fruto do descaso da administração pública com o bem público, com os pequenos animais, sem dúvida.
Violência maior, porém, é a hipocrisia desta classe média alta paulistana e dos governantes da capital. No dia seguinte, madames choravam diante das câmeras pelos bichinhos dragados pela água e que costumavam ser alimentadas com as migalhas de croissants, cookies e outras iguarias do gênero. O prefeito Gilberto Kassab foi até o local e, como bom político que se preza neste país, se isentou de culpa. Enfim, repetiu-se o roteiro de tragédias anteriores, com choradeiras, cobranças por parte da imprensa e desculpas esfarrapadas por parte das autoridades.
A tragédia do lago serviu para encobrir uma outra tragédia, esta rotineira, que já dura décadas e que é assistida passivamente por toda uma sociedade pelas câmeras de TV: a dos moradores da região do córrego do Aricanduva. A cada temporal, como o de segunda-feira (23/02), o corrégo transbordou e invadiu casas e alagou carros. Muitas famílias, mais uma vez, perderam tudo o que tinham. No dia seguinte, um rastro de lama e destruição no local, depois que as águas abaixaram. E nenhuma autoridade apareceu para dar respostas. E as tevês não mostraram nenhuma madame da Zona Sul, nem de qualquer outra região dita nobre da capital, chorando pelas vítimas do alagamento do Aricanduva… É duro aguentar tanta hipocrisia. E descaso.
Atos inconsequentes Fevereiro 21, 2009
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Auto-flagelação: farsa pouco convincente
Uma advogada, de forma inconsequente, armou uma farsa, autoflagelando-se e inventando uma estória de que teria sido atacada por neonazistas e, em consequência, teria abortado os gêmeos que não iria ter, já que não estava grávida. Ao menos, segundo os portais, a advogada confirmou que inventou tudo. A confissão veio depois que a polícia de Zurique, na Suíça, a desmascarou. O episódio, além de criar um baita mal-estar entre os governos suíço e brasileiro, este representado por falastrões precipitados, só serve para aumentar ainda mais o preconceito contra as mulheres brasileiras no exterior. Mais de uma amiga já me relatou que, em passeio pela Europa, recebeu proposta para fazer um “programinha” depois de contar ao seu interlocutor a sua nacionalidade. Sem falar que deu munição para partidos xenófobos, que costumam ganhar adeptos em momentos de crise, como os atuais. Nestas situações a violência como método de segregação passa a ser mais do que justificada em mentes deturpadas e preconceituosas.
Neste caso específico, vale ressaltar que todo a mídia brasileira, sem exceção, inclusive este blog, que não faz parte da mídia, comprou a versão da advogada desde o início. Faz parte…
E um torcedor corintiano teria confessado à polícia que explodiu uma bomba que ele mesmo fabricou na saída do estádio do Morumbi, depois do clássico entre Corinthians e São Paulo, domingo passado. Tal ato desencadeou uma série de fatos violentos que resultaram em 40 corintianos – todos companheiros, aliados deste ser insano que detonou a bomba – ferido, alguns com gravidade. Mais uma vez, tal ato só faz acirrar os ânimos entre torcidas rivais, que a cada dia se transformam em inimigas mortais. Para quem não acompanha o noticiário, permanecerá a sensação de que a bomba partiu de um torcedor são-paulino. A primeira oportunidade que surgir será a chance do revide, dando continuidade a uma espiral de violência sem limites. E as autoridades só fazem assitir atônitas sem qualquer providência mais séria.
São fatos com as respectivas consequências díspares uma das outras. Mas provocados por atos inconsequentes. O que nos leva a concluir que um pouco mais de inteligência e reflexão por parte das pessoas ajudaria muito a diminuir a violência como um todo. Mas creio que é pedir demais das pessoas.
Quando o samba desanda Fevereiro 18, 2009
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Julyana Chaves
Era para ser apenas mais um ensaio de uma escola de samba, como tantos outros, às vésperas do Carnaval – para a grande maioria dos brasileiros, talvez, o mais esperado do ano. Julyana Chaves, de apenas 14 anos, acompanhava placidamente sentada em uma cadeira o ensaio da bateria da Imperatriz Leopoldinense, no Rio de Janeiro. De repente, do nada, uma bala perdida a atinge na cabeça. Morreu horas depois.
O enredo está mais para uma tragédia grega. Passa longe de samba-enredo de escola de samba. E o toque fúnebre foi entoado por um perito carioca: será difícil de se investigar o crime por causa do alcance das armas atuais, que podem atingir alvos bem distantes. Por alvos bem distantes, entenda-se quatro mil, cinco mil metros. Isso mesmo.
Esteja onde você estiver, seja em uma escola de samba, seja em sua casa vendo tevê no sofá, é um alvo em potencial para armas de guerras espalhadas nas mãos de assassinos inconsequentes.
Que as escolas de samba se unam nesta luta inglória contra a violência e que Julyana Chaves não se transforme em mais um número nas estatísticas. Pois são apenas quatro ou cinco dias de muita alegria e folia no carnaval, mas de medo e terror no restante do ano…
Mulheres na mira da violência Fevereiro 12, 2009
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A violência diária neste país impressiona. Na verdade, espanta. Assusta. E a violência contra as mulheres, sempre um alvo preferencial para qualquer tipo de crime, dá arrepios. O noticiário dos portais é pródigo em relatar tais violências. A maioria é vítima de crimes passionais. O ciúme enlouquece um homem, qualquer um, mesmo o mais insuspeito. Fica ferido em sua parte mais sensível, o ego machista e covarde. Na verdade, não é preciso nem ciúme. Qualquer motivo é motivo para a macheza aflorar – opa, aflorar é coisa de boiola… para se manifestar e a agressão, a violência, acontecer. E os crimes se sucedem de forma impressionante.
Nesta quarta-feira (11/02), lendo o G1, portal da Globo, alguns casos chamaram a atenção. O que ganhou maior destaque foi o caso da mulher atacada por três neonazistas. Ganhou as manchestes dos portais principalmente porque aconteceu em Zurique, na Suíça. Devido ao ataque, ela abortou, nada mais violento e traumático para uma mulher que sonha em ser mãe.
Mas teve outros casos graves. Como, por exemplo, o do músico, que amarrou a amante, bem mais nova, a colocou no freezer e a matou com uma facada no pescoço. Ou seja, a matou quando estava totalmente indefesa. O que explica um crime desses?
E, em Ribeirão Preto, um motorista matou a mulher, que dormia no quarto dos filhos, com um golpe na cabeça de marreta. Isso mesmo, com uma marretada… E quando estava dormindo. É covardia demais para aceitar… Pior de tudo é que é um tipo de crime que só é possível combater com campanhas de conscientização ou por meio de denúncias de terceiros. Ou seja, a violência contra a mulher seguirá como uma rotina.
37 mortes em 10 chacinas em 2009 Fevereiro 10, 2009
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A primeira dezena de fevereiro registrou duas chacinas, uma em São Paulo e outra em Minas Gerais, de acordo com os portais. No dia 1º, três foram assassinados em Perus, na Zona Norte da capital. E no dia 2, mais quatro morreram em São José da Lapa, região metropolitana de Belo Horizonte. Desta forma, chegamos a 37 mortes em 10 chacinas em 2009. A média é de quase uma morte por dia do ano. Só em São Paulo e região metropolitana foram 18 mortos neste tipo de crime. Tudo bem que a Secretaria da Segurança Pública não cansa de festejar queda nos índices de criminalidade no estado, mas a realidade é bem mais dura do que parece.
Contagem de chacinas em 2009
(01/01)
Mauá – 3
(04/01)
Mauá – 3
(11/01)
Itaboraí-RJ – 3
(12/01)
Araucária-PR – 4
(14/01)
Santa Rosa-RS – 4
Americana-SP – 4
(18/01)
Rio de Janeiro – 4
(23/01)
Osasco – 5
(02/02)
São José da Lapa (MG) – 4
Total – 37
Estudantes sem coração Fevereiro 7, 2009
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A música de Milton Nascimento marcou época. Cantei muito esta música em roda de violão, com meu primo tocando. De tanto tocar, a letra, passada determinada fase da vida, ficou piegas até. Mas, junto com a melodia, segue gravada na memória.
Há que se cuidar da vida. Há que se cuidar do mundo, diz a letra, que se encaixa como uma luva no coração de todo estudante. Éramos estudantes, sim, e sonhávamos muito. Porém, além de piegas, a letra ficou datada. Estudante não sonha mais. Pelo contrário. Estudante quer saber de balada e é capaz de sacanear até o mais indefeso, até o mais desarrazoado dos seres.
Em Campinas, um grupo de estudantes de direito do Mackenzie, no dia 5, atacou literalmente um morador de rua. Segundo testemunhas, jogaram pinga no mendigo, raparam-lhe cabelo e sobrancelhas, entre outras covardias. São estes então os nossos futuros advogados, promotores, juízes e outros? Aqueles que seriam responsáveis por criar nossas leis, torná-las válidas, aplicá-las com Justiça e, assim, zelar por quem mais precisa em uma sociedade tão desigual? Que leis e decisões serão capazes de criar e tomar tais profissionais se nem como estudantes chegaram a sonhar? Seria o caso até de perguntar se tais estudantes têm coração…
10 mortos em operação no Rio Fevereiro 5, 2009
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Fazia tempo que a polícia carioca não recorria a uma das suas famosas operações, destas que deixam um rastro de sangue e morte. Nesta quarta-feira (4), a operação aconteceu nas favelas da Coreia, Taquaral e Rebu, na zona oeste, com os resultados de sempre: nada menos do que 10 mortos. Curiosamente, o número de vítimas fatais é maior do que o de presos, sete no total, sendo que apenas um deles tinha antecedentes criminais.
A explicação para tantas mortes é a de sempre também: resistência à prisão. A frase do chefe da Polícia Civil do Rio, Gilberto Ribeiro, é lapidar: “Não temos dúvidas que os mortos eram bandidos, pois trocaram tiros com a polícia”. A inferência é mais do que óbvia: se eram bandidos, mereciam morrer, de preferência sem qualquer julgamento.
A justificativa pode até ser válida, mas não convence, pois sempre ficam algumas perguntas no ar: se resistiram à prisão, se houve troca de tiros, por que as perdas foram todas de um lado só? Nenhum policial ferido? Nenhum bandido ferido? Só bandidos mortos?
Sinceramente, é incompreensível como todo uma sociedade aceita passivamente, sem qualquer tipo de questionamento, que uma polícia de um estado tão importante quanto o Rio de Janeiro atue com o dedo tão frouxo no gatilho. Enfim, silenciar é o que resta…
Quando a violência explode Fevereiro 3, 2009
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- Blindado da Tropa de Choque da PM invade a favela de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo
Favelas nas grandes cidades são barris de pólvora prestes a explodir, o que acontece com certa frequência no Rio de Janeiro e começa, aos poucos, a se tornar rotina também em São Paulo. A mistura explosiva é um misto de desemprego, baixa instrução escolar, tráfico de drogas, violência doméstica, falta de infraestrutura e de opções de lazer e, claro, uma absoluta ausência de estado, que deixa de suprir várias destas necessidades em uma região extremamente carente.
Para acender o estopim e incendiar esta mistura, basta um aceno de mão de traficantes, cientes das plenas frustrações que toda uma geração perdida de jovens carrega, sem quaisquer expectativas de futuro a não ser o de seguir a mesma trilha no tráfico. O resultado são dezenas de jovens enfurecidos e dispostos a destruírem tudo o que veem pela frente, como carros e lojas, sem qualquer motivo que justifique tais atos. Puro vandalismo.
Os relatos dos moradores da favela de Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, são bem parecidos: dezenas de jovens, como hordas bárbaras, ameaçando, roubando, destruindo tudo o que viam pela frente. E o estado completamente ausente, incapaz de apagar o rastilho da pólvora antes da explosão. Depois da terra arrasada, vem a resposta, desproporcional e na direção errada: a tropa de choque, com todo o seu aparato e os blindados, tipo “Caveirão”, que fez fama junto com o Bope, invade a favela e espalha mais terror.
E para deixar claro que o estado finalmente se fez presente, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Ronaldo Marzagão, vai até o local para afirmar que a situação é grave, “mas que está controlada”. De repente, uma frase enigmática: “Não podemos responder violência com violência. Temos de responder dentro da legalidade. É o preço que se paga”. Que preço é esse que se paga? Seria o preço da ausência de estado, que não cumpre o seu papel!? E quando resolve cumprir é tarde demais? Mais Paraisópolis virão. E com cada vez mais frequencia… É o preço que pagamos.
São Paulo mais violenta em 2008, mostra SSP Fevereiro 2, 2009
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Aumento dos números de latrocínio (roubo seguido de morte), estupro e roubo de carga em São Paulo. Redução do número de roubos, sequestros e homicídios. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo divulgou os índices de 2008 na última sexta-feira (30/01). A comparação entre os tipos de crime que aumentaram e diminuíram no estado de São Paulo é em relação ao mesmo período de 2007.
Diante da frieza dos números, o leitor leigo dificilmente chega a uma conclusão sobre se a violência aumentou ou não como um todo em São Paulo. E a própria secretaria não colabora para explicar estes números. Para o aumento do latrocínio, por exemplo, alegou não saber as causas deste acréscimo, de 21,4%.
Mas a própria polícia confirma o aumento da violência, como afirma o delegado geral da Polícia Civil, Paulo Bicudo, ao G1. “Se percebe que o tipo de arma utilizada é mais forte. Um marginal usando uma arma com maior poder de fogo, mais capacidade de repetição (do tiro) tende a fazer um estrago maior”, afirmou, acrescentando que o crime ocorre, na maior parte das vezes, porque a vítima esboça reação.
Em contrapartida, de acordo com ele, o percentual de esclarecimento desses crimes cresceu 47,2% em 2008 em relação ao ano anterior. De qualquer modo, não é o ideal. Melhor seria se o ladrão sequer tivesse a chance de iniciar o roubo. E nem eram necessários os números da SSP para saber que São Paulo está cada dia mais violenta. Basta ler os índices dos portais.